2 de junho de 2014
A beleza da mesa com caranguejos, farinha e camarões ao bafo na Maloca do Orlando

A beleza da mesa com caranguejos, farinha e camarões ao bafo na Maloca do Orlando

Este foi o segundo ano, em sequência, que visitei Belém durante o Festival Ver-o-Peso da Gastronomia Paraense. Belém é intoxicante durante todo o ano, mas os dias do Festival tem uma magia cultural única. Dias em que é possível conviver com grandes especialistas da área, conversar com pesquisadores, chefs, jornalistas apaixonados. Dias que se dividem entre refeições inesquecíveis  (o que é o açaí sensacional do Point do Açaí?!), palestras, aulas, passeios. Dias que se alongam mas, mesmo assim, parecem curtos demais.

Ah, a mandioca e seus derivados. Ir a Belém e não encher a cara de farinha - de vários tipos de farinha - é pecado dos graves. Passeie pelo mercado do Ver-o-Peso e prove-as. E, claro, leve-as pra casa

Ah, a mandioca e seus derivados. Ir a Belém e não encher a cara de farinha – de vários tipos de farinha – é pecado dos graves. Passeie pelo mercado do Ver-o-Peso e prove-as. E, claro, leve-as pra casa

O peixe que mais amo no mundo, o Filhote. Ele tem esse nome por ser filho da Piraíba, peixe de carne fibrosa e sem graça. Mas enquanto pequeno, suas postas são brancas, macias e úmidas

O peixe que mais amo no mundo, o Filhote. Ele tem esse nome por ser filho da Piraíba, peixe de carne fibrosa e sem graça. Mas enquanto pequeno, suas postas são brancas, macias e úmidas

O Festival Ver-o-Peso – idealizado pelo pesquisador e chef Paulo Martins e, após sua morte, tocado por sua mulher e filhas – tem como intuito divulgar a magnitude dos ingredientes/receitas/tradições amazônicas. Há doze ele promove coisas importantíssimas e raras no país: promove o orgulho da gastronomia local entre os moradores.

O melhor açaí de Belém? Sem dúvida no Point do Açai. Fresco, sabor de abacate, cremosidade ímpar - claro, acompanhado por peixe frito

O melhor açaí de Belém? Sem dúvida no Point do Açai. Fresco, sabor de abacate, cremosidade ímpar – claro, acompanhado por peixe frito

Um dos pratos do excelente menu-degustação do Remanso do Bosque:  caso do purê de pupunha em pele de arroz, com óleo de amendoim e farinha de pipoca

Um dos pratos do excelente menu-degustação do Remanso do Bosque: caso do purê de pupunha em pele de arroz, com óleo de amendoim e farinha de pipoca

Melhora a qualificação da mão de obra (que, claro, ainda tem muito a evoluir). Leva aos chefs de todo o Brasil uma visão única da riqueza da região. Luta contra o sentimento de vira-lata do brasileiro, que prefere comer itens importados de qualidade medíocre à consumir o que se tem somente na sua terra.

A beleza das castanhas do Pará no Ver-o-Peso

A beleza das castanhas do Pará no Ver-o-Peso

As legendas das fotos deste post trazem bastante informação sobre meu período por lá. Se fosse resumir (eita coisa complicada!) as coisas que mais me pegaram de jeito desta vez:

Língua e garganta dormentes é com ela mesma! Cachaça de Jambu

Língua e garganta dormentes é com ela mesma! Cachaça de Jambu do bar Meu Garoto: vendida em diversos pontos da cidade. Também nas versões Jambú com açaí, com buriti, com cupuaçú

Aviús, microcamarões de rio, no Ver-o-Peso

Aviús, microcamarões de rio, no Ver-o-Peso

1. Receitas tradicionais amazônicas transformadas em sanduíches

Impecáveis e muito bem executados, a lanchonete The Nine prepara sandubas como o Delírio Amazônico (burger de maniçoba com o maravilho queijo de Marajó) e o burger de coquinho da pupunha com cream cheese e redução de café com vinagre balsâmico, numa divertida e ótima releitura do hábito local de café da manhã. Vale muito, muito. 

O delicioso Delírio Amazônico, da hamburgueria The Nine: burger de maniçoba e queijo cremosão de Marajó. Com esse eu vou sonhar o ano todo…
O estupendo Delírio Amazônico, da hamburgueria The Nine: burger de maniçoba e queijo cremosão de Marajó. Com esse eu vou sonhar o ano todo…
Outra belezura da The Nine, lanchonete que transforma receitas da região em sanduíches: Patupi. Pato desfiado, arubé e muuuuuuito jambu

Outra gostosura da The Nine, lanchonete que transforma receitas da região em sanduíches: Patupi. Pato desfiado, arubé e muuuuuuito jambu

2. Trabalho das Filhas do Combú, marca criada pelas moradoras da ilha de mesmo nome que fabrica um dos chocolates artesanais mais valorizados na região

O melhor brigadeiro da minha vida foi feito com chocolate 100% cacau do Combú e nibs de cacau. O segundo melhor? Recheado com flor de jambu. Lindo projeto de valorização de produtos e mão-de-obras regionais, com produção modesta (até 8 quilos por semana) e inteira feita a mão, da colheita à confecção da barra.

Cairu, a sorveteria mais famosa da cidade e que oferece cerca de quatro dezenas de sabores, muitos de frutas locais. Este é de Açaí com tapioca e de cupuaçu, coco e pão de ló

Cairu, a sorveteria mais famosa da cidade e que oferece cerca de quatro dezenas de sabores, muitos de frutas locais. Este é de Açaí com tapioca e de cupuaçu, coco e pão de ló

Pajuarú, bebida alcoólica indígena feita à partir do beiju torrado da mandioca brava, servida durante uma das aulas do Festiva;

Pajuarú, bebida alcoólica indígena feita à partir do beiju torrado da mandioca brava, servida durante uma das aulas do Festival

3. O riquíssimo universo da mandioca

Gezuis, como ela é versátil e importante. De farinhas à goma. Doces, salgados, líquidos. Sua folha vira a sensacional maniçoba. Isso sem falar em Tucupi (o caldo fermentado da mandioca brava e temperado com alfavaca, chicória, sal e alho), Arubé (concentrado de tucupi refermentado com a goma, usado como molho) e 0 surpreendente Pajuarú, bebida alcoólica indígena feita à partir do beiju torrado da mandioca brava…. Belíssima palestra de Neide Rigo sobre o tema.

As amêndoas e barra de cacau 100% feito pelas Filhas do Combú, na Ilha do Combú, perto de Belém

As amêndoas e barra de cacau 100% feito pelas Filhas do Combú, na Ilha do Combú, perto de Belém

Também do Remanso do Bosque: úmido e absolutamente delicioso Filhote ao leite de castanha do Pará crua (sabor bem parecido com o de coco)

Também do Remanso do Bosque: úmido e absolutamente delicioso Filhote ao leite de castanha do Pará crua (sabor bem parecido com o de coco)

4. O talento e dedicação à pesquisa dos irmãos Felipe e Thiago Castanho, do Remanso do Bosque

Num dos melhores, mais trabalhados e delicados menus-degustação do país, Thiago brinda o comensal com criações que mesclam simplicidade conceitual e criatividade que extrai o máximo dos já espetaculares ingredientes, caso do purê de pupunha em pele de arroz, com óleo de amendoim e farinha de pipoca e do mais saboroso peixe que comi na vida, filhote ao leite de castanha do Pará crua.

O melhor brigadeiro do mundo! Chocolate e nibs de cacau do Combú

O melhor brigadeiro do mundo! Chocolate e nibs de cacau do Combú

Chamada de haddock paraense, a Gurijuba é defumada e servida em postas finas. Peixe com fama de "comida de pobre", desafiou o finado chef Paulo Martins, que criou esta maneira de servi-lo, driblando o preconceito dos moradores. Do Lá em Casa.

Chamada de haddock paraense, a Gurijuba é defumada e servida em postas finas. Peixe com fama de “comida de pobre”, desafiou o finado chef Paulo Martins, que criou esta maneira de servi-lo, driblando o preconceito dos moradores. Do Lá em Casa.

De longe, o melhor festival gastronômico do Brasil. Que os outros aprendam com ele, cresçam e levem profissionalização e informação para o público e mercado. Só assim teremos um país orgulhoso de algo que é mesmo motivo para imenso orgulho: nossa comida.