Bo Bech Paustian: a mais incrível refeição dos meus 34 anos de vida

Já era a quinta volta que o taxista dava sem conseguir encontrar o restaurante. A cada tentativa, nos perdíamos mais entre os milhares de contêineres do porto de Copenhagen. “Você tem certeza que esse restaurante é aqui? Nunca trouxe ninguém no porto pra comer…”, reclama o motorista em um inglês enrolado. Sim, eu tinha certeza. Absoluta. O bom senso o fez ligar para um amigo– então, a sexta volta foi a última. Havíamos chegado. Paguei a conta absurda (ele não deu desconto pela própria enrolação) e saí do carro. Do meu cabelo ao meu pé, tudo gelou: os oito graus negativos daquela tarde pareciam ainda mais polares naquela área descampada. Mas, enfim, estava lá: Bo Bech Paustian, o único restaurante que Claus Meyer (chef, sócio do NOMA, proprietário do Meyer’s Deli e dezenas de negócios ligados a gastronomia e um dos fundadores do movimento da Nova Cozinha Nórdica) havia me indicado pessoalmente no dia anterior. “Você vai ter uma das refeições da sua vida”, disse. A ver.

Queijo dinamarquês (fooorte) com trufas negras e pão local

Bo Bech Paustian ficava no mesmo prédio da megaloja de decoração Paustian, mistura de Tok&Stok com Gabriel Monteiro da Silva. Após a simpática acolhida do host, me dirigi a minha mesa, bem no centro do salão de 40 lugares, pé direito alto, iluminado, de decoração moderna sem exagero, aconchegante— e olha que não é fácil deixar um restaurante aconchegante no meio da área portuária. Decidi, em um instante, ir no menu confiance de cinco pratos (na época, custou 440 DKK, cerca de 140 reais). Sozinha, como viajo frequentemente, tive calma para reparar nos detalhes, como a louça feita à mão, a atenção dos garçons (todos estrangeiros, estudantes, bilíngues), o ruído das panelas bem atrás de mim. Ao me virar, deparei com uma cozinha minúscula, completamente aberta e integrada ao salão. Nela, apenas duas pessoas:  um ajudante e o chef  Bo Bech, finalizando todos os pratos. TODOS. COM A MAIOR TRANQUILIDADE DO UNIVERSO. Era esplêndido ver sua feição relaxada, tão oposta ao nernovismo e estresse que sempre observei nas cozinhas. A devoção ao ato de cozinhar, e o amor em fazê-lo, eram evidentes. Embriagadores.

Lula braseada com tomilho e batatas doces
Comi até o último farelo todas as maravilhas colocaram à minha frente. Lindas, aromáticas, magistrais. Pães e manteiga artesanais (o preto, feito em uma forma do formato de um porta-anel, oco, quebradiço e ligeiramente amargo ficará pra sempre na minha memória gustativa); panqueca finíssima com queijo dinamarquês e castanha esfarelada; lula grelhada recém-pescada com batata doce, tomilho e gema molinha; angus beef criado solto nas montanhas da dinamarca (Fargo) com cogumelos selvagens; pão preto típico, assado, com maçã assada e outro, com verdura (que esqueci o nome) e fatia quase invísivel de uma delicada e intensa gordura de porco; bacalhau fresco com manteiga, nozes, endro, purê de salsinha e estragão; queijo dinamarquês de leite de ovelha, com sabor parecido com a mistura de brie e gorgonzola, recheado com trufas negras e acompanhado com pão preto caseiro crocante; gordas e saborosas ameixas locais marinadas no conhaque e acompanhadas de sedoso e levíssimo sorvete de baunilha (a verdadeira, não a artificial) artesanal, coberto com espuma de leite; café acompanhado de uma imensa bola de algodão doce (!) com raspas de laranja. Três horas mais tarde já havia esquecido a cidade e o país onde eu estava, o frio lá fora, o silêncio lá dentro.
Couvert
 Estava completamente imersa na experiência de saborear ingredientes frescos, sazonais, preparados à perfeição por um cozinheiro apaixonado, dedicado. Me aproximei da bancada da cozinha: precisava dizer a Bo que tudo, absolutamente tudo, o que provei estava soberbo. Morrendo de medo de tomar uma palavra atravessada por estar atrapalhando a dinâmica do seu trabalho, me apresentei e fiz o único elogio que me veio a mente: “Sua comida é divina”. O que recebi foi um sorriso iluminado, verdadeiramente feliz, seguido de quarenta minutos de conversa gostosa, solta, sobre a culinária nórdica, a brasileira, a maratona de nova york (Bo havia emagrecido 15 quilos nos últimos 7 meses e se tornado maratonista) e o verão no Rio.queijo dinamarquês com trufas negras e pão local A refeição mais incrível da minha vida, certamente. Não porque foi feita em um restaurante com uma estrela Michelin em uma cidade que parece uma maquete das vizinhanças de uma casa de boneca. Foi a refeição mais incrível da minha vida porque foi repleta de tudo o que não está no cardápio: carinho, talento, amor e dedicação.Ameixas ao conhaque com espuma de leite e sorvete artesanal de baunilha
Bacalhau fresco com purê de salsinha

P.S.: O Bo Bech Paustian fechou em julho deste ano– a loja pediu o espaço de volta. O novo restaurante do chef está programado para abrir em fevereiro de 2011. O local ainda não foi divulgado.

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