30 de novembro de 2017
  • A lei brasileira permite 5 mil vezes mais resíduo de glifosato na água potável do que a União Europeia. Glifosato é o agrotóxico campeão de vendas no planeta e, segundo recorrentes pesquisas, “potencialmente carcinogênico e alterador da estrutura do DNA”.
  • No nosso país, o feijão pode ter 400 vezes mais resíduos de Malationa do que na UE. Malationa, o terceiro princípio ativo de agrotóxicos mais vendidos no Brasil, apresentou ‘alta neurotoxidade’ em diversas pesquisas científicas.
  • O uso de agrotóxico no Brasil saltou de 170 mil toneladas no ano 2000 para 500 mil toneladas em 2014, um aumento de 135%.
  • Dos 504 ingredientes ativos presentes nos agrotóxicos permitidos por lei no Brasil, 149 são proibidos na União Europeia. Entre os 10 mais vendidos por aqui, 2 são proibidos na UE.
  • Somados, todos os casos de intoxicação por agrotóxicos notificados junto ao Ministério da Saúde (entre 2007 e 2014) contabilizaram mais de 25 mil, o que significa uma média de 3125 por ano, ou 8 intoxicações diárias. Contudo, segundo a FioCruz, para cada caso reportado oficialmente, 50 nem chegam a ser notificados.
  • 74,4% do trabalho análogo ao escravo no Brasil concentra-se na produção agropecuária.

Estes são alguns dos chocantes dados presentes no Atlas Geográfico do Uso de Agrotóxicos no Brasil, o mais completo estudo já feito sobre o tema. O Atlas foi desenvolvido pela Professora Doutora em Geografia Agrária pela USP, Larissa Mies Bombardi, como resultado de dois pós-doutorados (Universidade Federal Fluminense, e University of de Strathclyde, na Escócia) e da análise de dados provenientes de diversos órgãos governamentais e não-governamentais brasileiros referentes ao período entre 2007 e 2014.

O que Atlas aponta é: enquanto assistimos ao comerciais “Agro é Pop” e nos orgulhamos de ser o ‘celeiro do mundo’ estamos sendo envenenados através do ar, da terra, da água e da comida. Em níveis assustadores e cada vez maiores.

Conheci Larissa há alguns meses, enquanto apurava dados e entrevistava especialistas para uma reportagem sobre agrotóxicos. Tomando conhecimento de seu estudo, esperei que este fosse lançado para escrever sobre ele: nenhum reportagem minha teria o impacto e abrangência dos resultados deste Atlas.

“O problema das análises de resíduos de agrotóxicos no Brasil é que, mesmo se apresentando dentro do limite, o limite é altíssimo”, diz Larissa.”Quando existe o registro de um ingrediente ativo diante da Anvisa, quem apresenta os estudos científicos sobre ele é a própria indústria. Não existe averiguação por parte do governo, a não ser quando há um processo de  reavaliação do princípio ativo por conta da pressão da sociedade civil ou da comunidade científica. Uma vez registrado, a licença não vence. É ad eternum”, explica.

“O registro, por lei, aponta o nível de toxicidade humana, que vai de 1 a 4, sendo 1 o mais alto. O glifosato, por exemplo, é considerado leve, com toxicidade 4. A razão disso é que a avaliação leva em conta apenas a intoxicação aguda, de impacto imediato. Não há estudos sobre intoxicação crônica, aquela que demora a se mostrar e deriva da acumulação’, diz Larissa. Esse é, por exemplo, o caso de vários tipos de câncer, doenças nervosas e degenerativas. Também não há nenhum tipo de estudo sobre os efeitos cruzados dos resquícios de ingredientes ativos de agrotóxicos ‘consumidos’ através dos alimentos, pela água e pelo ar.

E porque o cenário tão distinto entre nós e Europa? Nas palavras da pesquisadora:

“Com qual parâmetro se estabelece que a quantidade de resíduos tolerável à saúde humana em um país possa ser 250 ou 400 vezes maior do que em outros?  Evidentemente temos como resposta o lugar do Brasil e da América Latina neste pacto da economia mundializada. Na geografia desigual do uso e dos impactos dos agrotóxicos temos uma parcela da humanidade que literalmente, no cotidiano de suas vidas, vale menos, está alijada do Direito Humano mais essencial que é o próprio direito à vida”.

Uma das culturas mais regadas a agrotóxicos é a soja, o maior produto de exportação brasileiro da atualidade: a área cultivada é 33 milhões de hectares, o equivalente a quatro Escócias e, para ela, converge 50% de todo o agrotóxico usado no país. Também somos o principal exportador mundial de açúcar e o segundo de milho. Isso é incrível, certo? Alimentamos o mundo e a nós mesmos?

Não é bem assim.

Em 2016, o Brasil importou tanto soja quanto milho. Se o país importa itens dos quais ele é um dos maiores exportadores, significa que a lógica da produção está relacionada muito mais a vender “commodities” do que produzir alimento. Muito mais relacionada a lucro a qualquer custo do que com soberania alimentar nacional. Estamos semeando destruição ambiental e ampliando, fortemente, questões de saúde pública.

Em termos de área cultivada, os dados de arroz, feijão, trigo e mandioca mostram o sentido inverso aos da soja e da cana: há uma diminuição significativa da área cultivada de todos estes alimentos. O arroz, redução de 37,5% na área cultivada. Feijão, de 31% da área cultivada. Citando o Atlas: “com níveis crescentes de produtividade, sobretudo do arroz, do feijão e do trigo, a diminuição da produção não acompanhou o mesmo ritmo da diminuição da área. No caso do arroz houve um sensível aumento da produção em 2015/16, se comparada â de 2002, em tomo de 6%; mas uma diminuição da produção com relação à 2008/9 da ordem de 17%. Com relação ao feijão, se comparada a produção de 2015/16 em relação à de 2002/3 há praticamente uma estagnação, com diminuição de 1%”.

Voltando à soja: nos 5 últimos anos, houve grande expansão nos cultivos transgênicos. Atualmente, no Brasil, 96,5% da produção de soja e 88,4% da produção de milho são transgênicas. Nesse cenário, a transgenia é altamente preocupante por conta destes cultivos dizerem respeito a sementes geneticamente modificadas para serem tolerantes ao glifosato. Não são transgênicas objetivando algum bem final para quem consome; ao contrário, são elas que alimentam o círculo vicioso do atual processo produtivo.  

É bom esclarecer que, atualmente, grande parte dessa área plantada com soja e milho não é direcionada a sanar a fome humana, mas sim a movimentar outro mercado, o pecuário. Hoje, 70% de TODO o milho e soja produzidos no mundo vão para ração animal, inclusive de peixes. Por isso, não há como termos um sistema mais sustentável e ecológico de produção agro se não mudarmos nosso padrão de alimentação e diminuirmos o consumo de carne, ovos e leite: não existem recursos naturais suficientes para alimentar 70 bilhões de animais terrestres (número que se abate por ano, no mundo) e mais de 7 bilhões de pessoas. Querendo entender mais sobre o impacto do consumo de carne e derivados animais no planeta, clique AQUI.

Há dados aterradores no Atlas. Muitos deles.

O que especialmente me choca são os relativos a pulverização aérea de plantações, prática proibida na União Europeia desde 2009 (salvo raras exceções) em função da contaminação ambiental e vulnerabilidade da população exposta. Porém, aqui, é diferente: no estado de São Paulo, 60% dos cultivos de cana, 20% dos de cítricos e 15% dos de banana sofrem pulverização aérea. Cerca de 75% DA ÁREA DO ESTADO DE SÃO PAULO SOFRE PULVERIZAÇÃO AÉREA DE AGROTÓXICOS.

O vídeo abaixo, por volta dos 12 minutos, exemplifica bem o impacto dessa prática.

Há dados sobre a contaminação de bebês e crianças.
Sobre o profundo fosso de concentração de terra.
Sobre a qualidade de nossa água.
Sobre a escalada das monoculturas e a destruição do modelo de pequeno produtor rural. Sobre a qualidade de nossos alimentos.
Mas o maior incrível é a maneira em que o Atlas torna clara e compreensível a necessidade urgente de mudarmos nossa forma de produção e as vontades políticas que regem o Brasil.

O Atlas escancara o que a indústria agropecuária e os governantes tentam esconder a todo custo: continuamos uma colônia. Continuamos saqueando nossa biodiversidade e nossos recursos naturais para ‘fornecer’ o que nos é pedido. Continuamos sacrificando a população – sua saúde física e financeira – em prol de uma agenda que não a favorece em nada. Continuamos meros produtores de matéria-prima, deixando de lado o desenvolvimento de produtos e serviços que agreguem valor à nossa cadeia.

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Como conhecimento causa mudanças apenas quando compartilhado, você pode baixar o Atlas Geográfico do Uso de Agrotóxicos no Brasil AQUI, gratuitamente.

Ailin Aleixo
Ailin Aleixo Jornalista, criadora do Gastrolândia

Adora comer e beber bem – especialmente se for viajando. Ultimamente seu programa favorito é visitar produtores e conhecer o processo, nem sempre bonito, por detrás dos alimentos que consumimos. Fala (e escreve) demais o que pensa, é péssima em fazer média e já se acostumou em não ser das pessoas mais populares. Tem cinco gatos e quatro dentes do siso.

Instagram: ailinaleixo