28 de setembro de 2016
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Bezerros de uma semana de vida e suas mães na Fazenda Figueiral, de produção orgânica, no Pantanal. Ali, as crias ficam cerca de 14 meses em companhia das mães.

Hambúrguer, tartar, ragu, churrasco, carne moída, bife à milanesa… Brasileiro é um povo carnívoro. Para muita gente, se uma refeição não tiver carne, nem pode ser chamada de refeição. Carne bovina é tão presente no cotidiano do brasileiro quanto é desconhecida – você já parou para pensar como anda a qualidade da carne que você come? Do que esses animais se alimentam? Como vivem? Como são abatidos? Pois é, muito pouca gente para.

É tanto foodie, chef, churrasqueiro e cozinheiro de final de semana se preocupando com o marmoreio, ponto, blend, técnica, raça e ignorando totalmente COMO ESSE GADO FOI CRIADO. Para mim é o mesmo que construir uma casa dando mais atenção para a cor da parede do que aos materiais usados ao erguê-la.

Assim como outras fontes de proteína animal – ovos, frango, cordeiro, peixe, queijo, etc -, a carne bovina não aparece magicamente em pacotinhos na geladeira do mercado, nem nasce no espeto. Há que se criar o bicho, alimentar, abater – e esse processo consome montanhas de recursos naturais, como solo e água -, além de impactar profundamente na produção de gás metano (resultante da digestão do animal), o maior responsável pelo efeito estufa, e na saúde de quem consome, visto que a quantidade de antibióticos dada aos animais cresce a passos largos.

Foi para entender mais sobre pecuária que visitei uma das fazendas afiliadas a ABPO – Associação Brasileira de Pecuária Orgânica -, a convite da Korin, sua parceira na venda para o consumidor final (cerca de 90 toneladas/mês).

Peão tocando uma invernada ("lote" de gado) pelas planícies do Pantanal

Peão tocando uma invernada (“lote” de gado) pelas planícies do Pantanal

Antes de mais nada, é necessário entender a diferença entre pecuária convencional, sustentável e orgânica.

  • Na pecuária orgânica não se usa nem antibióticos, nem alopatia, nem ureia. Os animais são criados de modo extensivo (soltos) e alimentados com capim a maior parte da vida. Sua alimentação, nos últimos meses antes do abate, é complementada com grãos orgânicos.
  • Na pecuária sustentável (sistema de produção que concilia a preservação ambiental a crescimento econômico) não se usa ureia. Antibióticos, apenas em último caso. Os animais são criados de modo extensivo (soltos) ou semi extensivo e alimentados com capim a maior parte da vida. Sua alimentação, nos últimos meses antes do abate, é complementada com grãos convencionais, provenientes de monoculturas que aplicam agrotóxicos.
  • Na pecuária tradicional há o uso regular de antibióticos, ureia e alopatia. Os animais podem ser criados soltos, em semiconfinamento ou confinados. Durante boa parte da vida tem suplementação da dieta a base de grãos convencionais.

A ABPO possui 15 fazendas associadas, todas no Pantanal, que somam 60 mil cabeças de gado. A preocupação destes fazendeiros é manter o Pantanal preservado, continuar a tradição pecuária centenária da região, conscientizar os criadores a não aumentar a quantidade de cabeças e, em vez disso, agregar mais valor a elas. Unir sustentabilidade e rentabilidade.

Gados de vida livre - e sem antibióticos nem ureia - da Fazenda Figueiral, no Pantanal

Gados de vida livre – e sem antibióticos nem ureia – da Fazenda Figueiral, no Pantanal

Algumas regras da ABPO:

  • Sistemas produtivos que contemplem o bem estar animal;
  • Conscientizar o produtor rural quanto a não utilização de agrotóxicos e adubos químicos em suas propriedades pantaneiras;
  • É vedada a utilização de aditivos promotores de crescimento e de fontes de nitrogênio não protéico (uréia e amiréia), antibióticos, corantes artificiais, resíduos de animais e qualquer outra substância que possa persistir no ambiente e afetar a cadeia alimentar.
  • Não utilização de organismos transgênicos no sistema produtivo

Na Fazenda Figueiral (a qual visitei), na região da Nhecolândia, o gado (Nelore e Hereford) vive em meio a tuiuiús, porcos do mato, veados, capivaras, jacarés, onças – totalmente integrado ao meio ambiente. Quando perguntei aos proprietários, Luciano e Leonardo Leite de Barros, terceira geração de criadores de gado pantaneiro – o que eles faziam com as onças (meu medo era ouvir “matamos”), responderam: “Nada. Se elas comerem um bezerro ou outro, faz parte. Estamos no Pantanal e queremos preservar nossa biodiversidade. Há 200 anos cria-se gado aqui, junto a todos os outros animais”.

Seria lindo se toda carne que consumíssemos fosse decorrente desse sistema produtivo, não? Pois é, mas não dá.

Panorama da Fazenda Figueiral, no Pantanal, na qual se cria gado orgânico

Panorama da Fazenda Figueiral, no Pantanal, na qual se cria gado orgânico

Para criarmos o gado de forma decente e saudável, o consumo teria que diminuir drasticamente – e aumentar a consciência do tremendo impacto ambiental causado pela pecuária-, o oposto do que vem acontecendo. Em 2015 foram produzidos no mundo 318,7 milhões de toneladas de carne bovina, “e espera-se um aumento do consumo mundial a um ritmo de 1,6% por ano nos próximos 10 anos”, diz o agroeconomista belga Erik Mathijs.  O rebanho bovino brasileiro chegou a 212,3 milhões de cabeças em 2014, um acréscimo de 569 mil animais em relação a 2013. 

Para todo esse gado viver de forma natural – ou seja, solto – precisaríamos de mais uns 3 planetas. Então, qual a solução: confinar. Colocar cada vez mais animais, em menos espaço. E o que acontece inevitavelmente em superpopulações? Surtos de doença. Como se vence doenças sem mexer nas causas que as geraram? Entupindo os doentes com antibióticos. Círculo nada virtuoso.

Ah, tá, então agora não posso mais comer carne também? Só falta essa!”, alguns vão dizer, raivosos a ponto de querer me estapear. Não, não é isso. A solução mais sensata para esse cenário é apenas comer menos quantidade, de melhor qualidade e boa procedência. Simples e indolor.

Eis alguns dados sobre a produção de carne de bovina no Brasil. Nos links vocês encontrarão os sites e pesquisas dos quais os dados do texto foram retirados, tendo a possibilidade de se aprofundar no tema.

Querendo saber sobre produção orgânica e convencional de aves, confira nossas reportagens AQUI e AQUI
Peões cauterizando o cordão umbilical de bezerros recém-nascidos e marcando-os com brincos: no sistema orgânico, é obrigatório haver a total rastreabilidade do animal

Peões cauterizando o cordão umbilical de bezerros recém-nascidos e marcando-os com brincos: no sistema orgânico, é obrigatório haver a total rastreabilidade do animal

Qual o tamanho do rebanho bovino brasileiro?

Somos 206 milhões de brasileiros e temos 213 milhões de cabeças de gado (a produção sustentável e orgânica responde a menos de 0,5% do total). Tem mais vaca que gente no Brasil. No planeta, o número de bovinos é de quase UM BILHÃO.

Em consumo anual per capta de carne bovina, somos o quarto da lista – atrás de Uruguai, Argentina, Paraguai e Estados Unidos -, comendo média de 24,2 kg por ano/por pessoa. Se somarmos todas as carnes, consumimos 74,8 quilos por ano/por pessoa. É carne PACAS.

Claro que nem tudo fica por aqui: as exportações só crescem, especialmente para Rússia e China. Agora, conta pra mim o que vai acontecer se o um bilhão e quatrocentos mil chineses decidirem comer carne na mesma quantidade que nós, os argentinos e os americanos?

O gado vive confinado?

No Brasil ainda é bem raro encontrar rebanhos confinados. A razão é simples: temos muita terra disponível, a preços baixos. E quando não há muita disponibilidade, arruma-se um jeito:  a pecuária é a principal atividade responsável pelo desmatamento da Amazônia. Segundo o estudo realizado por Júlio Flávio Gameiro Miragaya, “O enorme avanço do desflorestamento decorreu, sobretudo, da expansão da atividade pecuária, em parte, impulsionada pela forte expansão do cultivo de soja, milho e cana-de-açúcar em áreas agrícolas do Centro-sul do País, provocando o rápido deslocamento das pastagens para áreas com terras de menor custo. Esse rápido avanço transformou a Amazônia e, particularmente o Arco do Desmatamento, na principal região pecuarista do País, respondendo por cerca de 80% do aumento do rebanho bovino no período”.

O lado positivo do não confinamento – feito de maneira a não destruir todos os biomas do país – é ter animais com comportamento mais próximo ao natural, vida mais livre e acesso a capim e luz solar. Mais saudáveis, enfim.

Tanto no método convencional quanto no sustentável, o confinamento – ou semiconfinamento – é usado para a finalização, período de meses (entre 3 e 5) em que os animais tem alimentação suplementada com grãos (ou a base de), o que vai conferir ganho de peso e formação de capa de gordura, também chamado de ‘acabamento’.

Os bois tomam antibiótico e hormônios?

Assim como para aves, caprinos, ovinos e suínos, é proibida no Brasil a utilização de hormônios para fins de engorda. Na criação convencional, antibióticos são liberados – e o volume usado é tão grande que já existe uma séria questão de resistência e criação de superbactérias. Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, FAO, muitos criadores estão dando antibióticos para os animais sem nenhum tipo de controle. Isso cria não só resistência nos animais, mas também a transmissão dessa resistência para os humanos ao consumirem a carne.

Há também o uso de vermífugos, antimicrobianos (Avilamicina, Sulfato de Colistina, Espiramicina, Lasalocida, Monensina sódica, entre outros) e Anticoccidianos (Decoquinato).

Na criação sustentável e orgânica é vetado o uso de antibióticos e anticoccidianos. O que faz o papel de incrementar a saúde do animal são homeopáticos e fitoterápicos, geralmente misturados à suplementação de sais (explicado abaixo).

Do que o gado se alimenta?

O gado brasileiro se alimenta, boa parte da vida, de pastagem, panorama bem diferente de países como os EUA, nos quais são criados confinados e entupidos de grãos (que, só para lembrar, não é o alimento natural do boi) durante toda a existência. É praxe dar ração baseada em grãos durante os últimos meses de vida pelas razões descrita acima. Neste ração, porém, não pode haver nenhum traço de farinha de carne e ossos ou qualquer outro produto de origem animal: a principal forma de transmissão da doença da Vaca Louca é justamente pela ingestão desses ingredientes.

No cultivo orgânico, a ração é composta 100% por grãos orgânicos.

Por que comem sal?

Como os pastos não suprem todas as necessidades minerais dos animais, é importante fazer a suplementação de forma correta utilizando uma mistura com todos os macro e micro elementos no concentrado. Os macrominerais mais importantes são: Cálcio (Ca), Fósforo (P), Magnésio (Mg), Enxofre (S), Sódio (Na), Cloro (Cl) e Potássio (K) e os microminerais: Ferro (Fe), Zinco (Zn), Cobre (Cu), Iodo (I), Manganês (Mn), Flúor (F), Molibdênio (Mo), Cobalto (Co), Selênio (Se), Cromo (Cr), Níquel (Ni), Vanádio (V) e Silício (Si). Normalmente esses elementos fazem parte da mistura mineral disponível no comércio, mas é importante comprar o produto de empresas idôneas e, em caso de dúvida, coletar amostra do produto e enviar para análise”, segundo site da Embrapa.

O que é uréia e porque ela é fornecida ao gado?

Esse é um ponto complicado… Na produção orgânica e sustentável, a ureia é e proibida por ser um componente derivado do petróleo e, sendo assim, completamente disconectado da alimentação natural do bicho.

Sim, derivado do petróleo.

A uréia é amplamente utilizada na formulação de dietas para bovinos de corte e leite com dois objetivos primordiais: redução de custos pela substituição parcial de fontes protéicas vegetais e o fornecimento de quantidades adequadas de proteína degradável no rúmen (maior compartimento do estômago do gado), para melhor eficiência de digestão da fibra.

Ou seja: geou, fez frio, calor demais, choveu em demasia e está sem pasto bom? Suplementa a alimentação com ureia, assim o gado continua engordando. Há quem diga que não deixa resíduos na carne… Já eu prefiro não consumir um bicho que é forçado a ingerir derivado do petróleo.

Quanto tempo vive o animal?

No Brasil, entre de 4 a 5 anos.

Alguns produtores – como a Fazenda Figueiral – abatem mais cedo, com 3 anos, para um resultado de carne mais macio e menos impacto ambiental (quanto mais vive o boi, mais come, mais bebe água…).

Como é feito o abate?
Manual do Ministério da Agricultura para criação e abate bovino

Manual do Ministério da Agricultura para criação e abate bovino

Não vi, porque a fazenda que visitei é de cria e recria e fica bem longe do frigorífico. Porém as regras do Ministério da Agricultura são nacionais e devem ser seguidas por todos os produtores legais – mas há muito gado no Brasil sendo abatido ‘em fundo de quintal’ de forma totalmente desumana (marretada no crânio, entre outros métodos horríveis).

Para aqueles que quiserem ver o processo, com fotos e diagramas, clique AQUI

Há três métodos oficiais de abate: dardo cativo, dardo não cativo e insensibilização elétrica.

No dardo cativo, uma pistola é posicionada na cabeça do boi – preso no brete – e tem o disparo de um cartucho de explosão (tiro) que insensibiliza o animal, deixando-o desacordado (“Perda da consciência, com colapso imediato (queda); musculatura torna-se contraída; flexão dos membros traseiros e extensão dos dianteiros”).

No dardo não cativo, uma pistola também é posicionada na cabeça do boi, porém não há penetração de projétil – um tiro de ar comprimido é disparado com força suficiente para desacordar o animal.

Na insensibilização elétrica há aplicação de corrente elétrica apenas na cabeça ou da cabeça ao corpo do animal. É o método menos utilizado.

Após essa fase, são suspensos pelas patas traseiras e sangrados. “O procedimento adequado para a sangria deve ser realizado cortando (incisão) os grandes vasos que emergem do coração (artérias carótidas e artérias vertebrais), localizados próximos às vértebras cervicais”, segundo manual do Ministério da Agricultura.

Qual o destino das demais partes do animal?

NADA se perde do boi. Nada. Até o cálculo biliar bovino (também chamado de pedra fel ou cálculo fel) é vendido para induzir formação de pérola em criações de ostras, fixar pintura em porcelana e como remédio, no Japão.

Maximização do lucro.

Quanto o produtor vende o gado para o frigorífico – geralmente de grandes e médias marcas, que compram de várias fazendas para comercializar sob um só logotipo -, recebe o equivalente ao valor da arroba, o peso do animal. Portanto, quando mais gordo, melhor. Só que aí está a pegadinha: animais mais jovens, tratados com melhor alimentação, sem uréia, sem antibióticos, tendem a pesar menos, o que desestimula o mercado orgânico e sustentável…

A carne, porém, é apenas uma pequena parte do lucro do frigorífico com o gado!

Com os ossos se faz farinha que vai para ração de animais de estimação.

Com os chifres, botão, pentes, adubo.

Com o couro… bem, couro.

Com o colágeno – derivado de ossos, restos de couro, ligamentos, tendões e cartilagens – gelatina usada para fins alimentícios, cosméticos (xampus, máscaras faciais) e farmacêuticos.

Com as glândulas hormonais – como a hipófise e a tireóide -, bílis e traquéia, insumos para a indústria farmacêutica.

Com os pelos, pincéis.

Com o sangue, farinha para ração de animais de estimação.

Com a queratina – principal constituinte da epiderme, unhas, pêlos, tecidos córneos e esmalte dos dentes -, condicionadores de cabelo, xampus, soluções para permanente.

Com o sebo – gordura -, sabões, sabonetes, detergentes.

Ailin Aleixo
Ailin Aleixo Jornalista, criadora do Gastrolândia

Adora comer e beber bem – especialmente se for viajando. Ultimamente seu programa favorito é visitar produtores e conhecer o processo, nem sempre bonito, por detrás dos alimentos que consumimos. Fala (e escreve) demais o que pensa, é péssima em fazer média e já se acostumou em não ser das pessoas mais populares. Tem cinco gatos e quatro dentes do siso.

Instagram: ailinaleixo