6 de Fevereiro de 2018

Lis com uma das galinhas que cria em sua casa

Não, eu não como carne. Nem peixe. Nem frango. Nem frutos do mar.

Nunca fiz questão de sair falando isso aos quatro ventos pois acho que consciência alimentar e consciência ambiental/ética está muito além de rotular pessoas ou dieta. Pra mim, classificar alguém como vegetariano é a mesma coisa que dizer que você é bi, hétero ou homo. Não acho que seja por aí. Existem nuances mais finas do que isso, e muito mais complexas.

Fora que os esteriótipos de vegetarianismo e veganismo ficaram tão ridículos e – tão ridicularizados – na nossa sociedade, que a gente, o povo que come planta, praticamente sofre bullying quando vai à público dizer que não come carne. A galera te olha feio, acha que você vai começar a discursar sobre a crise ambiental na mesa do jantar, fica revoltado com sua ingestão de proteínas, pára de te convidar pra festinhas, começa a te chamar de chato ou de abraça árvore.

A questão é: por mais que muita gente esteja tomando consciência sobre o consumo de carne e derivados e seus efeitos na saúde do corpo, no bem estar animal e na saúde do planeta, não comer carne – principalmente no Brasil – ainda é um tabu. Então vamos falar mais sobre isso.

Hoje em dia minha alimentação está mais pro que comem os bodes aqui de casa do que o que comem meus amigos. Mas não foi sempre assim. “Descobri” que não comia mais carne faz maomeno um ano, quando me dei conta que já faziam três meses que eu não colocava carne na boca. Nunca quis racionalmente parar de comer carne. Sou contra os confinamentos, contra o desmatamento, contra o abuso dos bichos em produções industriais, mas sempre respeitei a integração dos animais num organismo agrícola, então nunca condenei a galera que criava e se alimentava de animais. Mesmo porquê isso faz parte – concordemos ou não – da identidade cultural da maior parte do mundo.

De qualquer maneira, com o mínimo de consciência alimentar, eu já tinha um consumo muito reduzido de carnes e derivados. Quando você só come carnes e derivados orgânicos, artesanais, “sustentáveis”, etc, etc, seu consumo já cai drasticamente.

Tirando o fato que, se há alguma justiça nessa cadeia alimentar, então pelo menos que você tenha coragem de criar e matar. Eu não tenho, nunca tive. Sempre tive dó até de peixe tentando respirar fora da água em pescaria. Mas vivi muito tempo como todo mundo vive, comendo sem ter muita conexão entre o prato e a realidade. Quando comecei a me dar conta, achei injusto comer algo que eu não tinha nem coragem de matar e nem ao menos precisava para sobreviver. Afinal, sair correndo atrás de um bicho pra comer é mesmo coisa de quem está com muita fome. Dá um trabalho do cão. A não ser a galera que acha legal fazer isso como passatempo, correr atrás de algo que foge não é das tarefas mais fáceis. Um brócolis é bem mais tranquilo de “caçar” do que um alce.

Mas, enfim. Voltando à história de como eu descobri que não comia mais carne. Quando me dei conta que faziam três meses que eu não comia nada de carne, pirei. Daí minha cabeça logo tentou reverter a situação. Imagina. Só como bicho orgânico, bicho solto. Não como mais que uma vez a cada semana qualquer derivado animal. Resultado? Cheguei no restaurante e tentei matar um filézão. Passei mais mal que porre de tequila em festinha de faculdade. Dei um tempo, tentei colocar um peixe pra dentro. Pior ainda, parecia que eu tinha comido arsênico. Minha última tentativa foi com um pastel de arraia e camarão. Nem preciso dizer o que aconteceu – fiquei abraçada com a privada durante dois dias. Pois é. Nesse momento que eu percebi que eu não havia deixado de comer carne por qualquer motivo racional – era meu corpo que não estava mais afim mesmo. E por mais que eu ainda não estivesse entendendo o que estava acontecendo, não me restou outra alternativa a não ser começar a respeitá-lo.

Já faz alguns anos que optei por cortar industrializados, abolir as caixinhas e pacotes (mesmo orgânicos) e procurar plantar boa parte do que comemos aqui em casa. Mas hoje em dia, além disso, não como também nada de origem animal, a não ser bem de vez em quando: ovos aqui de casa, mel, leite da nossa cabra, queijos artesanais dos produtores amigos, manteiga, ghee que a gente prepara. E mesmo assim como muito pouco, pois meu corpo já não sente necessidade – e acabo comendo mais por gula mesmo.

Acredito, depois de pesquisar muito, que tudo o que precisamos está mesmo no reino vegetal – e não, não precisamos de carnes ou derivados para conseguir a tal da proteína. Esse é todo um tema. Na verdade nem precisamos de tanta proteína assim. Mas não estou aqui para entrar nos científicos – fiquemos no poético. Fiquemos no poético e voltemos para a gula. Ah. A gula e o prazer de comer.

Aprendi a gostar de gastronomia e de restaurantes comendo carne. Aprendi a cozinhar comendo carne. Aprendi a viajar experimentando absolutamente tudo em cada país, para chafurdar na cultura local. As caças, os ensopados, as curas, os pontos, os cortes, os caldos, os molhos. Puff. Agora aperta um botão e esquece tudo isso. É. A história da gastronomia é carnívora, e minha crise foi grande.  Bem grande, e demorei um tempo até assumir para mim mesma que sim, eu não comia mais carne, e ia ter que me virar com isso, redescobrir e reinventar o prazer de comer fora, de descobrir e de estudar as culturas alimentares mundão afora – agora com um novo olhar. Hoje já sou relativamente bem resolvida em relação a isso.

Mas e o restaurante? Não, a Enoteca não é um restaurante. Aliás, espero que nunca seja mesmo rotulada como nenhuma coisa. Sirvo boa parte do menu com base vegetal, e também carnes e derivados de criações sustentáveis, orgânicas, etc. Motivo? Eu acho que comer ou não carne é uma opção pessoal minha, e não invalida o trabalho dos pequenos produtores que trabalham de maneira artesanal seus bichos e derivados.

Não comer carne é uma opção, mas lutar contra a exploração animal, os maus tratos, as criações que só fazem mal pro planeta e toda a indústria milionária por traz disso, não é opção. É dever.

O consumo de carnes e derivados tem que ser reduzido drasticamente, pelo bem da saúde do planeta? Sim. É só pesquisar sobre os gases de efeito estufa, os dejetos de criações bovinas que vão parar no mar, etc, etc. O que não falta é material sério que mostra por A mais B que a indústria de carnes e derivados, principalmente a bovina, é a principal causa da degradação do planeta. O consumo de carnes e derivados deve ser drasticamente reduzido em prol do bem estar animal? Obviamente. Não tem sentido uma indústria que trata seres vivos como produtos. O consumo de carnes deve ser drasticamente reduzido em prol da nossa saúde? Idem. Hoje vivemos um excesso de ingestão de proteína animal, o que desencadeia milhares de doenças e desequilíbrios. Sem contar no desequilíbrio sócio econômico do modelo de criações industriais de animais, que mata atras agrícolas, biodiversidade e tradições alimentares.

Continuo acreditando que os animais são essenciais num organismo agrícola equilibrado, queira eu comê-los ou não. Não me julgo mais ativista ou mais evoluída do que os amigos carnívoros, afinal o livre arbítrio na alimentação é essencial, e cada um tem que fazer o que o corpo pede. Saber de toda a problemática da indústria de carnes e derivados, assim como os problemas relacionados ao excesso de consumo, não me faz vegetariana, vegana ou carnívora. Me faz apenas mais consciente.

E é isso que eu busco entregar nos pratos do meu restaurante: um pouco mais de consciência. Depois você vê o que faz com ela, tira as próprias conclusões, vai atras, pesquisa, escolhe seu caminho. Se eu experimento os pratos com carne na Enoteca? Não. Não vou mentir, por mais que tenha gente apontando de dedo e achando um “besurdo”. Hoje em dia são poucos os pratos com carne no menu, e tenho uma equipe – melhor do que eu – que faz as provas deles pra mim. Continuo acreditando no reaproveitamento integral dos animais, na utilização de partes não nobres, nos preparos tradicionais, no incentivo ao pequeno produtor. Pode parecer contraditório? Bom, das já não é problema meu, meu amigo. Pra mim, não é não.

Tem lugar pra todo mundo nesse mundão de Deus e não me acho em posição de ficar doutrinando ninguém. Temos que respeitar as vontades do nosso corpo, tomar com carinho nossa consciência nas mãos, e com mais carinho ainda as pessoas que estão ao nosso lado. Pois independente da dieta ou da filosofia de cada um, respeito é sempre fundamental pra que a gente possa junto, transformar nosso mundo num mundo melhor.

Lis Cereja
Lis Cereja Cozinheira, nutricionista e sommelière

Lis Cereja – formada em nutrição e gastronomia – dedica sua vida a pesquisar produtores que trabalhem de maneira sustentável, orgânica, biodinâmica. Proprietária da Enoteca Saint Vin Saint, no qual 100% do menu é sazonal e orgânico. Transformou sua casa numa pequena fazenda: tem horta (da onde vem boa parte das folhas da Enoteca), cabras (que produzem o leite que vira queijo no restaurante), galinhas, gatos e cachorro.
Um dos maiores nomes em vinhos naturais do país, é autora do livro Superdicas Para Entender de Vinho.
INSTAGRAM: liscereja