3 de novembro de 2016

O que mais ouço das pessoas que não estão habituadas a consumir orgânicos, ou se recusam por achar que é uma tremenda besteira, é: “Ah, mas dá pra confiar nesses selos? Sei, não, tudo nesse país é adulterado…”. Dá, dá para confiar na certificação.

Para entender melhor sobre o assunto, entrevistei Alexandre Harkaly durante a Quinzena de Orgânicos da Casa Santa Luzia. Harkaly – engenheiro agrônomo há 30 anos, fundador e diretor executivo da IBD Certificações – estava lá para ministrar uma palestra (excelente, por sinal) aos clientes do mercado/importadora.

IBD é a maior certificadora da América Latina e a única certificadora brasileira de produtos orgânicos com credenciamento IFOAM (mercado internacional), ISO Guide 65 (mercado europeu), Demeter (selo biodinâmico, mercado internacional), USDA/NOP (mercado norte-americano) e INMETRO / MAPA (mercado brasileiro).

Selo Brasileiro de produto orgânico

Selo Brasileiro de produto orgânico

Importante: produção orgânica vai muito, muito, muito além do não-uso de químicos tóxicos. As diretrizes de boas práticas orgânicas – seguidas pelo produtor para obter o selo de certificação – incluem responsabilidade ambiental e social, entre outras. É exatamente essa a análise feita pela certificadora. A lista completa inclui:

– Plano de Conversão (quando um produtor decide passar sua propriedade do manejo convencional para o orgânico, a mesma deve obedecer a um período de conversão. Ou seja: o solo e água contaminada deve passar por um período de ‘desintoxicação’.

– Informações obrigatórias que devem constar das embalagens, identificando os produtos provenientes da agricultura orgânica;

– Adubação orgânica (esterco animal e restos vegetais)

– Aspectos ambientais (desenvolver-se em bases sustentáveis, utilizando os recursos naturais de forma responsável, protegendo e conservando o meio ambiente, de acordo com a legislação ambiental brasileira e convenções internacionais sobre desenvolvimento sustentável)

– Controle de pragas e doenças, reguladores de crescimento e controle de contaminação;

– Mudas e sementes (inclusive de hortaliças e verduras) deverão ser de origem orgânica;

– Origem dos animais (no caso das produções de leite, laticínios, carne e derivados);

– Manejo (espaço, movimentação, aeração, proteção contra o excesso de luz solar direta, acesso a água e forragem, padrões de comportamento e tamanho de rebanho/área)

– Alimentação dos animais (deve ser 100% orgânica);

– Transporte, abate e comercialização;

– Identificação e segregação dos animais e produtos de origem animal;

– Pastagens e benfeitorias;

– Processamento, armazenagem, transporte e empacotamento da produção;

– Aspectos sanitários;

– Garantia da integridade orgânica do produto;

– Avaliação de insumos, aditivos e auxiliares.

Dá para notar que optar por um produto orgânico não é apenas ingerir alimentos sem químicos nocivos (o que por si só já seria sensacional): é dizer para o mercado que existe espaço para produtores que respeitam o meio ambiente, os recursos naturais, seus empregados e o bem estar animal.

Alexandre Harkaly, diretor do IBD Certificações

Alexandre Harkaly, diretor do IBD Certificações

“Trabalho há 30 anos com orgânicos e nunca pensei que, no Brasil, fôssemos chegar aonde chegamos: a procura por esse tipo de produto está crescendo tremendamente nos últimos anos. Porém, ainda somos apenas 1% da área produtiva brasileira e nem 1% do mercado. Há que ir com calma e pensar que este é o início de uma nova era, mais consciente”, diz Harkaly.

Com base na entrevista, elaborei um esquema de pergunta e resposta para facilitar a compreensão – penso que sanará boa parte das dúvidas.

Mesmo em franca expansão, o mercado de orgânicos ainda representa cerca de 1% do total no Brasil

Mesmo em franca expansão, o mercado de orgânicos ainda representa cerca de 1% do total no Brasil

O que é uma certificadora?

Certificadora é a empresa responsável por auditar os produtores a fim de checar se seguem o manual técnico de boas práticas orgânicas. Existe um ciclo que se repete: uma ou duas vezes por ano o produtor é auditado, no local, sempre sem aviso prévio.

As certificadoras são auditadas e fiscalizadas – para atender as demandas do ISO 1765 – anualmente pelo INMETRO e Ministério da Agricultura, de quem são associadas (o selo é governamental, mas quem os emite não é o governo, e sim as certificadoras).

Uma certificadora  tem no seu corpo profissionais – agrônomos, veterinários, zootécnicos, técnicos de alimentos, engenheiro químico e de alimentos – tanto na parte de escritório, quanto no campo.

O ministério tem, atualmente, oito certificadoras credenciadas: Instituto de Tecnologia do Paraná (TECPAR), IBD Certificações, Ecocert Brasil Certificadora, Instituto Nacional de Tecnologia (INT), Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), Insituto Chão Vivo de Avaliação da Conformidade, Agricontrol (OIA) e IMO Control do Brasil. 

O que acontece com produtor pego fraudando as regras da produção orgânica?

O produtor é notificado e caso não corrija os pontos detectados, pode haver sanções e até suspensão. Os produtos que apresentam alteração representam menos de 1% do total analisado.

Qual o caminho para o produtor conseguir a certificação?

No Brasil há três meios de acesso ao mercado orgânico: auditoria através de certificadoras, sistema participativo e venda direta.

No sistema participativo, cooperativas cadastradas pelo MAPA tem os produtores vistoriando uns aos outros e se autocertificando, em processo auditado pelo próprio MAPA, sem envolvimento de certificadoras externas. Há o selo de orgânico na embalagem.

No sistema de venda direta, uma associação de produtores fornece seus produtos direto para o consumidor – em processo auditado pelo MAPA -, mas não tem direito ao uso do selo.

Quando há a intenção de exportam qualquer produto orgânico, existe a necessidade da certificadora, visto que o mercado externo não aceita o sistema participativo.

O que envolve uma produção orgânica?

Orgânico não é apenas o não uso de agrotóxicos. Existe lista de insumos permitidos e proibidos, período de conversão para orgânico (descanso da terra), barreira de contaminação dos vizinhos, adequação social, controle de qualidade que envolve as boas práticas de produção. Rastreabilidade é a chave, é o que te conecta com a origem. Se o produtor não consegue provar da onde adquire e como manuseou a matéria prima, não é aprovado.

A procura por orgânicos tem aumentado nos últimos anos no Brasil?

O site do IDEC é um bom termômetro do aumento do mercado de orgânicos: no último levantamento apontou mais de 500 feiras orgânicas pelo Brasil. Há cinco anos eram 200. Ainda está muito concentrada no Sudeste, região de maior demanda, mas a área de produção está aumentado bastante no Nordeste – de frutas para exportação como cacau, caju, acerola – e, em Minas Gerais, com o café.

“Mas orgânico é mais caro”…

Não comprar uma alface por 4 reais porque a convencional é 1,50 é a famosa economia burra: o consumidor está deixando de estimular um produtor orgânico e dando mais saída a um produto que intoxica quem planta, intoxica quem come, intoxica solo e água. Em que momento vai acabar cedendo ao orgânico? Quando estiver no hospital. O corpo chega num nível tal de intoxicação, que só a alimentação resolve.

Consumo consciente é saber que através das nossas escolhas direcionamos o desenvolvimento do mercado para o lado mais ou menos sustentável. Se não conseguir comprar tudo orgânico, ok, sem problemas. Comece aos poucos, substituindo um ou outro item, de acordo com o dinheiro disponível – fazendo isso, se gera demanda. O que tem demanda, tem produção. O que tem produção maior, tem preço mais baixo. 

Por que há tão pouca produção orgânica de animais de corte no Brasil?

Falta de proteína vegetal orgânica para alimentar os animais. Há um desafio técnico de produzir soja e milho orgânicos em grande escala. Se um dia essa barreira for vencida, a produção de proteína animal orgânica aumentará muito.