19 de fevereiro de 2016

gourmetizacao copyInspirado pela polêmica da suposta Catuaba Gourmet, resolvi escrever um texto refletindo sobre o que é gourmetizar. Creio que há muita confusão sobre esse tema e um mal entendimento do público em geral.

Gourmetizar é se apropriar de uma embalagem estética para vender um produto ruim. Isso pode ser feito de diversas maneiras.

Por exemplo: sou dono de uma fábrica de chocolate e, como vocês bem sabem, a Páscoa vem aí. Crio um novo produto chamado ‘chocolate gourmet’. Na verdade é o mesmo chocolate, apenas melhorei um pouco a embalagem. Pronto, já posso vender 3 vezes mais caro. Isso é gourmetizar. Um bom exemplo: a Godiva.

Por outro lado, outro cara mais honesto, tem uma fábrica de chocolate. Ele resolve começar a comprar cacau venezuelano ou da Amazônia brasileira, investe nas melhores máquinas do mercado, paga bem seus funcionários e cobra um pouco mais caro do que o chocolate da Nestlé (que parece que usa trabalho escravo). Isso se chama fazer bem as coisas.

Tenho visto por aí gente falando muito bobagem sobre esse assunto. É preciso saber diferenciar uma cachaça Leblon de uma Weber Haus. As duas são caras, com a diferença que a primeira é ruim e a segunda é boa. A primeira parece um trabalho de publicidade; a segunda, um trabalho sério de pesquisa buscando o melhor produto.

De repente em algum bar, um rabo de galo com Weber Haus vai te custar mais caro do que o tradicional feito com 51, mas o resultado (se executado por boas mãos) será muito melhor.

Nós brasileiros temos muito complexo de inferioridade. Como assim catuaba por R$100? Whisky pode, né? Imagina um escocês pensando: “Esse cara envelhece o whisky por 25 anos em barril. Ele está gourmetizando o whisky!”

E o vermouth, tão em moda fora do Brasil. Tem alguns que custam mais de R$200. Tomara que nossos produtores pesquisem bastante e façam produtos de qualidade. Mesmo que esses sejam caros, vai servir de incentivo para melhorar os mais baratos e todos se beneficiam disso. Tenho certeza que com o tempo, o nível das nossas cachaças e outros produtos vão melhorar muito. As pessoas ainda reclamam de pagar caro por um rabo de galo, mas quando pedem Negroni, querem com Hendricks…

Mas a maquiagem gourmet não é a única que engana as pessoas. Por exemplo: sou dono de uma sanduicheria. O sanduiche é horrível. Vou abrir um novo local. Fácil! Contrato uma RP, ela faz um trabalho maravilhoso divulgando nossos valores e que não estamos lá para ganhar dinheiro e sim para mudar o mundo. Coloco umas cadeiras retrô, de repente aquela luz que esta na moda no Brooklin. Quem sabe uma horta pra decoração! Bom, continuo usando o pior alface e a pior das carnes no sanduíche. Isso se chama hipsterização.

Na vida você tem que ficar esperto e aprender a diferenciar as coisas. Nem tudo que é barato é bom. Nem tudo que é caro é ruim. Nem tudo que é barato é ruim. Nem tudo que é caro é bom.

As vezes sobra discurso e falta bastante trabalho por trás. Tomem cuidado pra não acabar chamando de goumetizado algo que é bem feito, ao mesmo tempo que frequentam lugares cheios de afetação pagando muito dinheiro por uma cerveja quente. Fazer isso é ajudar a criar um país com produtos e serviços medíocres. Afinal de contas, bar ruim é mesmo bom?

Ivan Ralston
Ivan Ralston Cozinheiro, chef do restaurante Tuju

Ivan estudou em Barcelona (escola Hofmann) e passou pelas cozinhas do El Celler de Can Rocca e Mugaritz, na Espanha, e do Ryugin, em Tóquio. Acredita que um bom prato/restaurante/chef só possam existir à partir do uso de produtos de qualidade e práticas sustentáveis.

Não é muito fã de premiações gastronômicas nem do deslumbramento do mundo foodie-instagram-ostentação. Adora sua horta e seu cachorro.